As imagens funcionais do cérebro, tais como as da imagem acima produzida por PET (positron emission tomography), têm sido usadas para corroborar a existência de anomalias neurológicas no lobo frontal dos sociopatas.
O PET obtém secções transversais do cérebro reconstruídas por computador, mostrando a cores o nível da actividade metabólica dos neurónios. Isto é conseguido injectando-se moléculas de glicose marcadas radioactivamente no sangue de pacientes e observando o quanto dele é incorporado em células cerebrais vivas. Quanto mais activas são as células, mais intensa é a imagem naquele ponto.
Usando o PET, o pesquisador médico americano Adrian Raine e colegas estudaram assassinos com resultados surpreendentes. Estes encontraram 41 assassinos que tinham um nível muito baixo do funcionamento cerebral no córtex pré-frontal em relação às pessoas normais, indicando um déficit relacionado com a violência.
O dano nesta região cerebral, notou Raine, pode resultar em impulsividade, perda do auto-controle, imaturidade, emocionalidade alterada, e incapacidade para modificar o comportamento, o que pode facilitar actos agressivos.
Outras anormalidades observadas pelo estudo de PET do cérebro de assassinos apresentam assimetrias anormais de actividade na amígdala. É provável que estes efeitos estejam relacionados com a violência e a criminalidade, pois, algumas destas estruturas fazem parte do sistema límbico, que processa as emoções e o comportamento emocional.
Um aspecto interessante da pesquisa do Dr. Raine é que ele relacionou as imagens cerebrais de PET com as histórias pessoais dos assassinos, a fim de se certificar que tinham sido submetidos, quando eram crianças, a algum trauma psíquico; abuso físico ou sexual, abandono ou pobreza. Entre os assassinos, 12 tinham sofrido abuso significativo ou recebido maus tratos na infância. Foi descoberto que assassinos vindos de ambientes perturbadores tinham déficits muito maiores (14 % em média) na área órbito-frontal (zona central representada em cada uma das três imagens) do cérebro do que pessoas normais ou assassinos vindos de ambientes normais e saudáveis.

Imagens PET do cérebro de uma pessoa normal (esquerda), um assassino com história de privação na infância (centro) e um assassino sem história de privação (direita). As áreas em vermelho e amarelo mostram uma actividade metabólica mais alta, e em preto e azul, uma actividade metabólica mais baixa. O cérebro de um sociopata (direita) tem uma actividade muito baixa em muitas áreas.
Fonte: Imagens de Adrian Raine, University of Southern California, Los Angeles, USA
Os estudos iniciais controlados, realizados por Raine e colegas foram confirmados por uma série de investigações baseadas em PET com indivíduos sociopatas e criminosos violentos. Um estudo de 17 pacientes com diagnóstico de distúrbio de personalidade foram submetidos ao PET, em 1994.
Os pesquisadores provaram que havia uma forte correlação inversa entre uma história de dificuldades de controle de agressividade durante toda a vida e o metabolismo regional no córtex frontal. Seis destes pacientes eram anti-sociais, o resto tinha vários distúrbios de personalidade (marginais, dependentes narcisistas…).
O PET foi usado novamente em 1995 para avaliar o metabolismo da glicose cerebral de oito sujeitos normais e oito pacientes psiquiátricos com história de comportamento repetitivo violento. Os autores obervaram que sete dos pacientes mostraram amplas áreas de baixo metabolismo cerebral, particularmente, no córtex pré-frontal e temporal medial quando comparado com os de sujeitos normais. Estas regiões têm sido implicadas como o substrato para agressão e impulsividade, a sua disfunção pode ter contribuído para pacientes com comportamento violento.
Mais recentemente (1997), a tecnologia de imagens cerebrais por PET mostrou também que os psicopatas diferiram dos não-psicopatas no padrão de fluxo cerebral relativo durante o processamento de palavras com conteúdo emocional.
Ainda que muitos destes resultados devam ser tomados com cuidado, todos eles convergem para uma importante descoberta: a de que os cérebros de criminosos violentos e sociopatas são, na verdade, alterados de uma maneira subtil, e que este facto pode agora ser revelado por novas técnicas sofisticadas.
Uma consideração importante é que o comportamento humano é extremamente complicado e resultado de uma interacção de muitos factores tais como sociais, biológicos e psicológicos.
Existem muitos factores envolvidos no crime. A função cerebral é apenas uma delas, diz o Prof. Adrian Raine. Mas, ao entendermos a sua função cerebral, estaremos numa melhor posição para entender as causas completas do comportamento violento.
Portanto, existe razoável evidência que os os sociopatas têm uma disfunção do cérebro frontal. Quando e a razão desta disfunção aparecer ainda é, até agora, totalmente desconhecido.
Muitas das características da personalidade dos psicopatas poderiam ser explicadas por déficits emocionais. Por exemplo, estes revelam pouco afecto pelos outros, são incapazes de amar, não ficam nervosos facilmente e não mostram culpa ou vergonha quando abusam de outras pessoas. Assim, os cientistas têm feito hipóteses (desde há muito tempo) de que os psicopatas têm uma deficiência nas suas reacções aos estímulos evocadores do medo e esta seria a causa da sua insensibilidade e também da sua incapacidade de aprender pela experiência.
Muitos testes psicométricos foram criados para analisar o cérebro e determinar a capacidade mental dos indivíduos. Os testes de Q.I. ajudam os profissionais a avaliar a inteligência do suspeito e o seu processo de pensamento, enquanto que os testes ajudam a descobrir os mistérios de sua personalidade. Estes examinadores ajudam os psiquiatras forenses a descobrirem as obsessões do indivíduo que pudessem influenciar no seu comportamento.
O mais famoso é o teste de Rorschach – pelo qual são analisadas as interpretações de uma pessoa de alguns desenhos abstratos. Um psiquiatra forense nunca se pode equivocar, pois um diagnóstico errado pode colocar em perigo o andamento de um julgamento.
Os psicopatas não mostram alteração nestes parâmetros quando são submetidos a stress ou a imagens desagradáveis. Estas alterações também não aparecem quando os sujeitos são avisados, antecipadamente, por um flash de luz, quando vão receber um estímulo stressante (por exemplo, um desagradável sopro de ar nas suas faces). Esta é a razão porque os sociopatas mentem tão bem e porque não são detectados (não regista) à mentira pelos equipamentos de detecção de mentiras (polígrafos).
Tudo isto não significa que os sociopatas não tenham emoções. Eles têm, mas em relação a eles mesmos, não em relação aos outros.
Em conclusão - O Erro de Descartes

António Damásio
António Damásio, o neurologista já referido, desenvolveu uma teoria, confirmando dados de outros autores, que poderia explicar porque pacientes com distúrbios provocados por lesões no cérebro têm estes problemas emocionais. Ele denominou essa teoria: hipótese do marcador-somático.
Na nossa vida passada, aprendemos a associar a certas situações sensações agradáveis ou desagradáveis, ou seja, determinadas emoções, e essas associações aprendidas modificam os padrões neuronais ficando, portanto marcadas.
Quando, mais tarde, somos confrontados com situações semelhantes, o marcador-somático rapidamente avalia as situações a fim de escolher uma opção e, por isso:
- o marcador-somático funciona como um incentivo e impulsiona-nos para essa opção ou acção;
- ou o marcador-somático inibe essa opção, não obrigando a gastar tempo a pensar sobre ela, o que leva à procura de alternativas.
De acordo com o Dr. Damásio, pessoas com lesões no lobo frontal têm muita dificuldade ou são mesmo incapazes de activar estes marcadores somáticos.
Ele diz: isto deprivaria o indivíduo de um dispositivo automático para sinalizar consequências negativas relativamente a respostas que poderiam trazer a recompensa imediata.
Damasio AR, Tranel D, Damasio H - Individuals with sociopathic behavior caused by frontal damage fail to respond autonomically to social stimuli
Isto explica também porque é que os sociopatas e pacientes com lesões no lobo pré-frontal mostram poucas respostas automáticas a palavras condicionadas socialmente e a imagens com conteúdo emocional, mas têm respostas normais a estímulos incondicionados (estímulos que desencadeiam respostas não aprendidas pelo sujeito) como outras pesquisas de Damásio mostraram.
António Damásio defende que não há separação entre a mente e o corpo. A mente tem uma base biológica, a mente e o cérebro constituem uma realidade única.
Defende também, no seu livro O Erro de Descartes que o pensamento racional exige o contributo das emoções e dos sentimentos: um indivíduo não consegue decidir racionalmente quer em relação a si quer em relação aos outros.
Os casos clínicos que Damásio investigou, levaram-no pensar que a tomada de resolução e a escolha de opções nas pessoas comuns não se faz baseada exclusivamente no exercício racional (Descartes), mas faz-se através de Marcadores-somáticos.
Bibliografia:
Artigo de Renato Sabbatini , artigo O Cérebro do Psicopata
Livro de Psicologia – Ser Humano 12º ano, Porto Editora
Comportamento neurológico – síndromes frontais
http://www.cerebromente.org.br
http://virtualpsy.locaweb.com.br/index.php?art=257&sec=47
http://www.psiquiatriageral.com.br/cerebro/texto9.htm
http://www.psiqweb.med.br/cursos/neurofisio.html
Entrevista com António Damásio e o caso de Phineas Cage – livro de psicologia 12º ano, Tema I
Mentes Criminosas, de Brian Innes
Revista de investigação criminal
Teresa F. Deus